Recebendo está magnífica energia criativa e sob a influência da minha imaginação poética e intuitiva que nutre o mundo com suas maravilhosas histórias.
Tendo a luz suave e a energia da lua atuando sobre a minha natureza, resolvi escrever a Estória do
“ANDARÍLHO”
poeta dos tempos modernos: contando suas experiências.
Num momento de minha vida tive a oportunidade de conhecer um simples, maravilhoso e sentimental homem.
O encontrei num período em que sua vida na voracidade do mundo de hoje: estava uma completa confusão.
Dotado de uma super imaginação, ele almejava terminar sua vida de uma maneira simples e tranqüila. Pessoa de lealdade franca e justa, acredita num futuro melhor.
È um grande defensor da liberdade, e em sua avidez pelo melhor, nunca deixou de sonhar...
Dizia o andarilho:
- Sei que tive muitas vidas, no entanto descreverei a seguir uma que considerei a mais bela.
Um dia conversando com meu amigo Deus, pude observar quantos anjos existem no mundo vivendo entre os seres humanos.
Passeávamos por uma grande e desumana cidade, quando um forte cheiro chamou-nos a atenção para uma favela que se achava ao nosso lado,
Nos encaminhamos para lá.
Avistamos por debaixo de um imenso viaduto, uma pobre e maltrapilha família.
Eram anjos caídos!
Eles estariam pagando de uma certa maneira suas mazelas, no sofrer do dia a dia?
Eram pessoas feias, doentes, sujas e esquecidas.
No entanto Deus disse-me:
- Não fiquem tristes elas estão resgatando suas penas.
Quando chegamos em frente à favela, avistamos uma magnífica e frondosa “árvore”.
FIGUEIRA está que dizem os moradores tem quinhentos anos. Ela é considerada a árvore das lágrimas e das saudades.
Sob sua sombra corações sem número separaram-se, outros se juntaram enamorados, uns fizeram promessas, outros festejaram sonhos realizados.
- “VIANDANTES QUE ME COMTEMPLAS?’”.
Olhando para o céu percebi aves acadêmicas portadoras de sabedoria, voando sobre nós.
Despertando suaves recordações da brumosa Paulicéia que vi e admirei, vejo e admiro ainda, acompanhando a vertiginosa e triunfal marcha para o progresso paulistano.
- Descubra-se e venha até eu trazer suas queixas, parecia dizer a bela Figueira, pois era ali o lugar das lamentações do povo do lugar.
Olhando para os lados exclamei:
- OH, rio da minha infância, não o vejo mais aqui!
Outrora era limpo e cristalino, hoje está poluído, cheio de lixos por todos os lados, sem a beleza de antigamente.
Nele flutuam velhas poltronas, fogão quebrado e gatos mortos.
Rio que dava alimento a todos, hoje trás doença, mau cheiro e desespero, com suas enchentes devastadoras.
Vimos moleques raquíticos, nadando no rio poluído.
Era o próprio quadro da tristeza que está o lugar.
Rio que um dia dava alegria, hoje é o lixão da cidade.
O seu cheiro machucava as narinas.
Fomos nos afastando da água morta que corre negra e ensaboada; quando avistamos flutuando uma foto de um anjo sorrindo.
E neste contraste da vida, achei que nem tudo está perdido.
Existe nesta favela cerca de sessenta mil habitantes, ela tem mais ou menos cinco quilômetros de comprimento por um e meio de largura.
Há doze ou quinze anos atrás, esse lugar era realmente horroroso.
Entre córregos fedorentos, ruelas enlameadas, casebres feitos de resto de tábuas de construção ou com folhas de zinco, retirados de um lugar qualquer.
A favela melhorou com a assistência da pastoral do bairro e com a ajuda da população.
O lugar passou de deplorável para o estado de suportável.
Agora tem asfalto, posto de saúde, transporte urbano e mercado.
Seus habitantes têm hoje um pouco mais de conforto e segurança.
Com a construção de grandes passarelas que cortam avenidas, a vida ficou um pouco menos perigosa.
Com a existência dessas passagens, formou-se em sua volta uma dezena de pequenos botecos, feitos de restos de madeiras.
Vende-se de tudo.
Ferramentas já em desuso, fitas, canetas, quitutes mal feitos, utensílios domésticos, verduras de baixo teor e frutas sem muita qualidade. Caldo de cana, pastel, e uma dezena de quinquilharias.
Num cantar estridente em som altíssimo, embala o comércio a vos de cantores sertanejos ou um mexido forró.
Em liberdade todos circulam por ali.
Passamos por homens, mulheres e crianças que brincavam por entre as frágeis barracas.
Entre cachorros vira-latas, íamos tropeçando nos bêbados vindo dos botecos, tendo nas mãos a pinga mais barata.
Vimos quantidades de carros antigos, Chevetes, Brasilias, Volks e Fiats, misturando-se com as roupas penduradas nos frágeis varais .
Passavam por ali muitas pessoas que se misturavam com o lixo de todos os lados, com os
monte de caixotes, e tanques fedorentos.
Homens e mulheres afogavam suas mágoas no vício que campeava solto na suja mesa de sinuca e na velha máquina da sorte.
Vez ou outra se avista um barraco onde se vende sapato, alimento, carne de porco exposta ao céu aberto sem muito cuidado com a higiene.
Nesta mistura de gente, cachorros e moscas; vemos pessoas que até parecem felizes.
Entre baianos, nordestinos, mineiros, mal vestidos, mal alimentados, criam-se meninos desajustados, indisciplinados que com os catadores de papel:
“Trocam uma boca de pito.”
Conversando animados com um monte de desempregados.
Brasileiros sem esperança vão vivendo...
Neste momento olhei para Deus e ele estava sorrindo. Pois sabe que o homem vai encontrar a solução.
Andando mais um pouco, encontramos de onde vinha o cheiro de ervas de cozinha e de remédios que sentimos ao entrar.
Vinha de uma barraquinha que estava espremida entre os botecos.
Lá dentro estava cheio de cigarros de palha, fumo de corda e algumas marcas antigas. Avistei um maço de cigarros da marca FULGOR que há muito eu não via, era do tempo do meu avô.
Continuamos andando entre bêbados, mendigos e pobres lavadeiras.
Percebemos uma cena comovente e nos aproximamos.
Era uma mulher maltrapilha que estava cuidando de um monte de gatinhos. Eles eram sua família.
Ela os alimentava com o dinheiro da esmola que ganhava todo dia e lhes dava muito carinho.
Aproximei sentindo-me um menino encabulado nos meus pra lá de sessenta anos.
Seu olhar era de pura ternura , logo envolveu meu coração.
Então lhe perguntei?
- Cuida deles sozinha, como se chamam?
Ela iluminada por um grande e desdentado sorriso, respondeu-me.
- Tenho a ajuda de muita gente: mas o nome deles você conhece. Muitos deles foram seus!
Para o meu espanto, reconheci o meu antigo gato malhado Clides, a gatinha Mariazinha a Doralice e o Ric. Eram os animais de minha meninice.
Como?
- E olhando para Deus compreendi que estava presenciando um milagre, que só vemos quando temos o coração aberto para o amor.
Os meus animais do passado estavam ali como um milagre sendo cuidados por um anjo.
Então comovido e com lágrimas nos olhos parei no tempo.
Recordei minha infância em uma pequena localidade do estado de São Paulo, Itaiaçu.
“Uma viola de madeira que toca lindas
canções, trazem lembranças de minha
infância e saudades no meu coração.”
Lembrei-me do menino de Itaiaçu, história que não escrevi;
Vivi !
Nos meus seis ou sete anos sem camisa e pés descalços, galopando no cavalo de cabo de vassoura, atirava balas de mamona em inimigos invisíveis.
Com muitos pauzinhos de sorvete, cercava uma mangueira da fazenda de brincadeira.
Com mangas roladas por terra e espetadas no palito: tornava-me o dono de uma boiada inteira.
Nos meus doze e treze anos já mais crescidos, jogava bola de meia no areal quente. Nadava no rio Ferreirinha.
Tudo era uma gostosura.
De dia roubava frutas, de noite tinha que ser valente e entrar no cemitério.
Com quatorze desafiava o tourinho na arena.
Receber correio elegante das meninas da quermesse.
Era ser macho!
Pitar cigarro escondido na torre da igreja.
Era ser homem!
Chupava jabuticaba no pé, tirava periquito do ninho, vagabundeava pelo campo.
Recordações da infância,
Que saudades!
Ò Deus deixe-me ser menino outra vez...
Então cantei.
“No caminho de terra roxa
tem subida, tem descida
menina de Itaiaçu
perdição de minha vida.”“.
Vejo-me a correr em campina verdejante, levando toda a alegria de uma vida simples e feliz.
Crescendo forte e valente o menino livre e sem preconceito que um dia habitou em mim.
Com um olhar bem penetrante estava ficando lindo o filho do seu Chiquinho.
“O vulgo Rodolfo Valentino.”
Que veio pro mundo partir corações.
Desenvolveu-se assim o menino do interior.
Curtia um mundo mágico na grande fazenda de Tabarana; onde com seus muitos irmãos e amigos corriam por todos os lados em algazarras diabruras e acrobáticas artes.
Com o estilingue enfiado no bolso de trás, subia em coqueiros para ver de perto o ninho dos passarinhos.
Cercava a água da enxurrada das ruas, batia papo no jardim.
Ir ao boteco da cidade ouvir viola e cantoria caipira de alguns cantores locais; era um prazer.
Adorava escutar as lendas contadas pelos mais velhos, sobre a mula sem cabeça, sobre a bola de fogo.
Isso sempre dava medo.
Ir cedinho ao curral tomar leite fresquinho, tirado da vaca naquele momento; era uma delícia.
Ver os cavalos amarrados no pau de frente ao comércio. Comer fruta roubada do pomar do seu Venâncio, pescar no rio Turvo: era pura felicidade.
Na pelada do quintal, era um craque, não deixava por menos as artes de todos os dias.
Na arena dos bois bravios, o seu Chiquinho ficava meio doido com o seu desafio, pois montava cavalo bravo e corria pelos campos do lindo lugar que morava.
Lembranças da mãe Deolinda, severa porém de bom grado preparava deliciosas comidinhas que o moleque devorava com pressa.
E entre muitas farras:
- O menino de Itaiaçu era cúmplice de sua turminha.
Escondidos separavam a égua malhada para fazerem as safadezas de sua curiosa e pequena idade. Em fila um por um em estrondosas gargalhadas, iam à égua abusando, enquanto um dos moleques distraía o animal com milho.
O trato era que cada um pensaria em uma menina, e o último por castigo deveria pensar na mais feia.
A magrela da Amélia, que tinha um olho branco e era estrábico.
Tinham que fazer a arte bem depressa, para não ser gozado pela turma.
Os guris não podiam ver calcinhas de moça penduradas no varal, que logo a imaginação subia pra cabeça e a égua era a solução.
O DIA ERA CHEIRO E FELIZ!
Mas tinham que ir para a escola e a rigorosa mãe ordem na piazada botava. Entre o lavar atrás da orelha e os dentes, todos partiam para o grupo escolar do patrimônio.
Lá outra emoção o esperava.
O menino de Itaiaçu estava apaixonado pela linda professora Suzana.
Ela era o seu primeiro amor...
Fazia-se de manhoso o danadinho só para receber especial atenção da carinhosa professora. E com esse terno amor no coração, espera chegar a hora de pra casa voltar.
A noite aproximava-se.
No conforto da casa grande, que mais parecia um castelo de tantos quartos que tinha; toma banho e enche a barriga com a gostosa e quente refeição.
Já deitado pensa nas festas que a avó Ricarda faz, tem pamonha, bolo de chocolate, balas e muito carinho, e ela sempre escondia um docinho para mim.
Dormia em cama fofinha com colchão de crina. Travavam uma guerra de travesseiros cheios de penas que se espalhavam para todos os lados, e entre estas brincadeiras escutavam-se risos e cochichos.
Dorme satisfeito e piá que sonha com as artes que vai fazer no dia seguinte.
Assim feliz sossega por um tempo o sapeca de Itaiaçu.
Quando acorda no outro dia, de preguiça não tem tempo, veste-se e corre lá para fora olhar as montanhas tão bonitas da bela fazenda de Tabarana.
O garoto foi crescendo e os interesses se modificando; ele agora observa mais a festa da igreja, a banda no coreto e as meninas. Assim foi esquecendo a bonita professora e em seu coração veio morar a engraçadinha Valquiria.
Seu pai comerciante de algodão, muda-se com toda a família para o patrimônio, onde monta uma loja que vendia de tudo.
O rapaz moreno bonito, sem maldade no coração, estava virando adulto, no entanto num esqueceu a velha professora.
Com os olhos cheios de lágrimas; olhei para aquela graciosa mulher que estava ao meu lado e agradeci ao amigo Deus por ter tido experiência tão bonita.
Assim deixamos a favela e passando pela Figueira mais uma vez;
Pare!
Agradeci tudo o que presenciei...
E de mãos dadas com meu amigo, partimos para outras aventuras apaixonantes, pois sou um...



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